Quase tudo por “água abaixo”

Prontas para mais um capítulo de novela da vida real?

Nossa vida estava assim no Brasil, eu estava grávida do meu segundo filho, prestes a

me formar após 6 anos de curso e meu marido entrou no processo seletivo para uma

empresa em Amsterdam. Assim que aceitamos proposta solicitamos um visto de

emergência pois estava grávida e só poderia embarcar até 37 semanas. A burocracia

era grande e ficamos na espera por dois meses e meio na ânsia de receber o tão

esperado e-mail de aprovação dos vistos e liberação para entrega dos passaportes no

consulado. Durante este período, vendemos tudo o que tínhamos em nossa casa, pois

não compensaria levar por container, mas ainda não havíamos entregue nada, pois

ainda não tínhamos a data definida do nosso embarque e não poderíamos ficar sem

nada na casa em que morávamos.

O tão esperado dia chegou, o dia de levarmos os passaportes no consulado e

finalmente comprarmos as passagens, e então, algo aconteceu...

O dia esperado chegou e então fomos ao consulado, eu com 37 semanas de gestação,

com a Alice de quase dois anos pedindo colo e meu marido com toda a papelada.

Chegamos pontualmente e ao entrarmos já nos chamaram pelo nome. Tudo parecia

correr perfeitamente e já estávamos pensando na data que compraríamos as

passagens. Descemos do prédio e de repente, comecei a sentir um líquido quente

escorrer pelas minhas pernas, em meio aquele dia frio de São Paulo. Não podia

acreditar e tentava segurar o líquido e as lágrimas. Sim minha gente, minha bolsa

rompeu em frente ao consulado.

PS. Aos que dizem que sou muito tranquila, segue aí uma resposta ao meu stress

contido. O corpo não sustenta por muito tempo, não é mesmo?

Voltemos a estória, disse ao Juan que minha bolsa tinha rompido e ele desacreditado,

disse que eu deveria estar enganada, falou para que eu fosse ao primeiro banheiro que

encontrasse na rua para checar, pois na minha primeira gestação não passei por isso.

No banheiro tive a confirmação e seguimos para meu médico obstetra que era

próximo ao consulado, mas antes, passamos em uma loja para que eu comprasse ao

menos uma calcinha e uma calça, pois foi tanto, mais tanto líquido, que o frio estava

cortante, rs.

Ao chegarmos no médico ele nos tranquilizou e disse que deveríamos ir para a

maternidade e esperaríamos o início do trabalho de parto ativo. Fui para a

maternidade sozinha e o Juan voltou para Atibaia com a Alice para pegar tudo o que

precisávamos e voltar para maternidade a tempo. Foram longas horas em que passei

naquele hospital, pensamentos a mil.

Não havia nada pronto, nem para mim na maternidade, nem para receber Noah em

casa, afinal, estávamos de mudança. As roupas que ele tinha, tinha ganhado de alguém

e o berço, ainda estava sendo utilizado pela irmã. Por sorte, tínhamos um berço

portátil que ainda não tinha sido vendido.

Depois de 12 horas do rompimento da bolsa, por orientação médica seguimos para o

centro cirúrgico para realizar uma cesárea e com isso, mais um plano meu havia sido

modificado em menos de 24h.

Noah nasceu saudável e fizemos um parto mais humanizado possível, mas confesso

que chorei muito no parto, parte por emoção, parte por desespero e medo do

desconhecido. Não avisamos ninguém que ele havia nascido, pois não gostaríamos de

receber visitas nessas condições, estávamos abalados e surpresos com tudo.

Logo que chegamos em casa, me dei conta que em 3 dias a Alice completaria 2 anos e

em 6 dias, o Juan deveria ir para Amsterdam, pois a empresa já havia comprado sua

passagem para um evento que ocorreria. Ou seja, precisaríamos nesse tempo agilizar o

processo de visto do Noah (sim, um recém-nascido precisa tirar passaporte e visto no

país de nascença, mesmo que a família toda já tenha o visto em mãos), e também, a

entrega dos móveis da casa, a casa em si, e a organização das malas para levarmos. Ou

seja, euzinha, no puerpério imaginário e minha cunhada fizemos nossa mudança

inteira para um Airbnb em Sp para que aguardássemos o visto do Noah sair e

finalmente comprarmos as passagens para todos nós.

Não contávamos com mais um imprevisto, com 15 dias de vida, Noah teve uma febre

muito alta e, por orientação do pediatra, fomos ao hospital e fizemos milhares de

exames, dentre eles, detectaram meningite. Sem dúvida nenhuma, foi a pior notícia

que já recebi. Chorava como uma criança, e se não fosse minha cunhada segurando

minha mão, não sei o que seria. Meu marido pegou o primeiro voo da Holanda e foi

para o Brasil pois disse que não passaria por aquilo sozinha. Ficamos 1 semana no

hospital até que saísse o resultado do tipo de meningite, e graças a Deus, foi a viral e

recebemos alta. Só te digo uma coisa, sinto como se tivesse ficado naquele quarto por

1 ano chorando, sentindo falta da Alice, tendo medo de perder meu filho e pensando o

porque estava passando por aquilo.

Voltamos ao apartamento que estávamos e não conseguimos estender mais dias da

nossa estadia e tivemos que mudar de Airbnb e ficamos por mais 4 dias em outro até

que embarcamos para cá, eu, meu marido, Noah com 1 mês e Alice de dois anos.

Viemos com 5 malas e só minha gente. Não me lembro muito da viagem por que acho

que estávamos baqueados de tantos acontecimentos nos últimos dias. Só me lembro

que, enquanto estávamos nos arrumando para sair do apartamento e ir ao aeroporto,

a Alice caiu da cama e ganhou um galo gigantesco na testa, só pra colocar aquela

cerejinha no bolo, rsrs.

Para finalizar, chegamos em Amsterdam em um apartamento mobiliado (o primeiro e

único visitado pelo meu marido) e enfrentamos uma nova vida juntos, marido

trabalhando fora e eu, em casa com duas crianças, enfrentando o inverno mais

rigoroso dos últimos 30 anos em Amsterdam. A boa notícia é que, com uma boa dose

de resiliência e mindfullness sobrevivemos a tudo isso e passamos bem, obrigada, de

nada, rsrs.

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Julia Maia - @juliamaia90

Meu nome é Júlia sou psicóloga e mãe da Alice de 3 anos e do Noah de 1 ano.

Atualmente moramos em Amsterdam e sempre que conto da nossa vinda para cá, as

pessoas ficam surpresas por tantas coisas que passamos até chegarmos aqui. Fato é

que, já sobrevivemos a tanta coisa, que me sinto quase que invencível quando o

assunto é imprevisto. Vem comigo embarcar nessa aventura que é minha vida.